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Tanto mais eu te contemplo tanto mais eu me absorvo e me extasio. Como te explicar o que em teu corpo eu sinto, o que em teus olhos vejo, quando nua nos meus braços no meus olhos nua,de novo eu te procuro e no teu corpo vou-me achar?
Como te explicar se em teu corpo eu me eternizo e de onde e como sendo eu pequeno e frágil pelo amor me dualizo? Tanto mais eu te possuo tanto mais te tornas bela, tanto mais me torno eu puro.
E à força de tanto contemplar-te e de querer-te tanto, já pressinto que em mim mesmo eu não me tenho, mas de meu ser, ora vazio, pouco a pouco fui mudando para o teu ser de graça cheio.
Estás partindo de mim e eu pressinto que me partes, e partindo, em ti me vai levando, como eu que fico e em mim vou te criando. Tanto mais tu me despedes e te alongas, tanto mais em mim vou te buscando e me alongando, tanto mais em mim vou te compondo e com a lembrança de teu ser me conformando. Estás partindo de mim e eu pressinto na verdade, há muito que partias, há muito que eu consinto que tu partas como um mito... Mas não és a única que partes nem eu o único que fico: sei que juntos e contrários nos partimos: pois tanto mais nos desencontros nos revemos, tanto mais nas despedidas consentimos.
Estranho e duro amor é o nosso amor, amante-amiga, que não se farta de partir-se e não se cansa de querer-se. Amor todo feito de distâncias necessárias que te trazem e de partidas sucessivas que me levam. Que espécie de amor é esse amor que nos doamos sem pensar e sem querer com tanto amor e tão profundo magoar? Estranho e duro amor que não se bastae de outros amores se socorre e se compensa e neste alheio compensar-se nunca se alimenta, mas se avilta e se desgasta. Estranho amor, ferino amor, instável amor feito sem muita paz, com certo desengano e um desconsolo prolongado. Feito de promessas sem futuro e de um presente de saudades. Chorar tão dúbio amor quem há-de? Estranho amor e duro amor, incerto amor, que não te deu o instante que esperavas e a mim me sobejou do que faltava.