
Contemplo agora o leito que vazio se contempla.
Contemplo agora o leito que vazio em mim se estende
e se me aproximo existe qualquer coisa trescalando aroma em mim.
Onde o teu corpo, amante-amiga,
onde o carinho que compungido em recebia
e aquela forma que tranquila ainda ontem descobrias?
Agora eu te diria o quanto te agradeço o corpo teu
se o me dás ou se o me tomas, e o recolhendo em mim,
em mim me vais colhendo,
como eu que tomo em ti o que de ti me vais doando.
Eu muito te agradeço este teu corpo quando nos leitos o estendias
e o me davas, às vezes, temerosa, e, ofegante, às vezes,
e te agradeço ainda aquele instante (o percebeste)
em que extasiado ao contemplá-lo em mim me conturbei (o percebeste)
me aguardaste e nos olhos te guardei.
Eu muito te agradeço, amante-amiga,
este teu corpo que com fúria eu possuía,
corpo que eu mais amava quanto mais o via,
pequeno e manso enigma que eu decifrei como podia.
Agora eu te diria o que não soubeste e nunca o saberias:
o que naquele instante eu te ofertava
nunca a mim eu já doara e nunca o doaria.
Nele eu fui pousar quando cansado e dúbio,
dele eu fui tomar quando ofegante e rubro,
dele e nele eu revivia e foi por ele que eu senti a solidão,
e o amor que em mim havia.
Teu corpo quando amava me excedia,
e me excedendo com o amor foi me envolvendo,
e nesse amor absorvente de tal forma absorvendo,
que agora que o não tenho não sei como permaneço
nesta ausência em que tuas formas se envolveram,
tanto o amor e a forma do teu corpo
no meu corpo se inscreveram.
Affonso Romano de Sant'Anna


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