29 de junho de 2009

Poemas para a Amiga (Fragmento 4)





As vezes em que eu mais te amei
tu o não soubeste e nunca o saberias.
Sozinho a sós contigo em mim mesmo eu te criava,
em mim te possuía
De onde vinhas nessas horas
em que inteira eu te envolvia,
nem eu mesmo o sei e nunca o saberias.
Contudo,
em paz eu recebia o carinho,

compungindo o recebia,
tranqüilo em meu silêncio e tão tranquilo
e tão sozinho que calmamente eu consentia
que ainda que muito me tardasse mais ainda,
um outro tanto, eu sempre esperaria.


28 de junho de 2009

Poemas para a Amiga (Fragmento 5)





Tanto mais eu te contemplo tanto mais eu me absorvo e me extasio.

Como te explicar o que em teu corpo eu sinto, o que em teus olhos vejo,
quando nua nos meus braços no meus olhos nua,
de novo eu te procuro e no teu corpo vou-me achar?

Como te explicar se em teu corpo eu me eternizo

e de onde e como sendo eu pequeno e frágil pelo amor me dualizo?
Tanto mais eu te possuo tanto mais te tornas bela,
tanto mais me torno eu puro.

E à força de tanto contemplar-te e de querer-te tanto,

já pressinto que em mim mesmo eu não me tenho,
mas de meu ser, ora vazio,
pouco a pouco fui mudando para o teu ser de graça cheio.

Poemas para a Amiga (Fragmento 6)





Estás partindo de mim e eu pressinto que me partes,
e partindo, em ti me vai levando,
como eu que fico e em mim vou te criando.
Tanto mais tu me despedes e te alongas,
tanto mais em mim vou te buscando e me alongando,
tanto mais em mim vou te compondo
e com a lembrança de teu ser me conformando.

Estás partindo de mim e eu pressinto na verdade,
há muito que partias,
há muito que eu consinto que tu partas como um mito...
Mas não és a única que partes nem eu o único que fico:
sei que juntos e contrários nos partimos:
pois tanto mais nos desencontros nos revemos,
tanto mais nas despedidas consentimos.

Poemas para a Amiga (Fragmento 7)





Estranho e duro amor é o nosso amor, amante-amiga,
que não se farta de partir-se e não se cansa de querer-se.
Amor todo feito de distâncias necessárias que te trazem
e de partidas sucessivas que me levam.

Que espécie de amor é esse amor
que nos doamos sem pensar e sem querer
com tanto amor e tão profundo magoar?

Estranho e duro amor que não se basta
e de outros amores se socorre e se compensa
e neste alheio compensar-se nunca se alimenta,
mas se avilta e se desgasta.

Estranho amor, ferino amor, instável amor feito sem muita paz,
com certo desengano e um desconsolo prolongado.
Feito de promessas sem futuro e de um presente de saudades.
Chorar tão dúbio amor quem há-de?

Estranho amor e duro amor, incerto amor,
que não te deu o instante que esperavas
e a mim me sobejou do que faltava.

21 de junho de 2009

Poemas para a Amiga (Fragmento 8)




Contemplo agora o leito que vazio se contempla.
Contemplo agora o leito que vazio em mim se estende
e se me aproximo existe qualquer coisa trescalando aroma em mim.

Onde o teu corpo, amante-amiga,
onde o carinho que compungido em recebia
e aquela forma que tranquila ainda ontem descobrias?

Agora eu te diria o quanto te agradeço o corpo teu
se o me dás ou se o me tomas, e o recolhendo em mim,
em mim me vais colhendo,
como eu que tomo em ti o que de ti me vais doando.

Eu muito te agradeço este teu corpo quando nos leitos o estendias
e o me davas, às vezes, temerosa, e, ofegante, às vezes,
e te agradeço ainda aquele instante (o percebeste)
em que extasiado ao contemplá-lo em mim me conturbei (o percebeste)
me aguardaste e nos olhos te guardei.

Eu muito te agradeço, amante-amiga,
este teu corpo que com fúria eu possuía,
corpo que eu mais amava quanto mais o via,
pequeno e manso enigma que eu decifrei como podia.

Agora eu te diria o que não soubeste e nunca o saberias:
o que naquele instante eu te ofertava
nunca a mim eu já doara e nunca o doaria.

Nele eu fui pousar quando cansado e dúbio,
dele eu fui tomar quando ofegante e rubro,
dele e nele eu revivia e foi por ele que eu senti a solidão,
e o amor que em mim havia.

Teu corpo quando amava me excedia,
e me excedendo com o amor foi me envolvendo,
e nesse amor absorvente de tal forma absorvendo,
que agora que o não tenho não sei como permaneço
nesta ausência em que tuas formas se envolveram,
tanto o amor e a forma do teu corpo
no meu corpo se inscreveram.

Affonso Romano de Sant'Anna

19 de junho de 2009

Reencontro


Seios túrgidos

Olhar ardente

Mãos buliçosas

Falo ereto

Boca faminta

Glande molhada

Lençóis revoltos

Na dança do acasalamento

Fêmea e macho roçando os corpos

Cheiro de cio impregnando o ar

Unhas cravadas, pele marcada

Gozo explodindo em mil gotas imaculadas

Respiração falha

Pele acetinada

Volúpia amansada

Desejo por hora saciado

Nesse reencontro lascivo

Entre homem e mulher


Piettr@

Oratório do Corpo (trechos)



Segue os ditames do teu corpo.
Ele sabe as tuas necessidades.
Atende quando ele grita "liberdade".
Segue teu corpo; ele sabe do que necessita,
sabe os caminhos da fome, do cio, da sede, do sono.
Sê humilde perante o corpo sábio, pois o corpo
pensa de acordo com as raízes mais profundas,
Pode sentir as raízes que te irmanam à criação.

...

O corpo não precisa desencantar-se, não precisa
de fadas, de demiurgos, de paraísos, de infernos.
Se for corpo de mulher, nenhum príncipe é necessário:
só um macho que acredite no sêmen.
como na hóstia de um deus apenas seiva,
e confie o corpo à fêmea como o padre confia o cálice ao altar.
Crê no teu corpo, confia no teu corpo, no corpo do homem,
no corpo da mulher.
Crê no corpo como na única ponte entre os homens;
e que acima do rio variável e enganoso da palavra,
a carne seja como um gesto em perene dádiva.

O corpo é mais antigo e belo do que a Cova de Altamira,
e a gruta do útero pode ser mais funda e clara
do que uma aurora que se abrisse no fundo da terra.

...

Vê, amigo melancólico, como é bela a moça que bota corpo:
ontem era como um coelho, hoje é uma novilha.
E tu, moça, minha amiga não fiques triste
a remoer a utopia dos contos de fadas:
vem comigo. Eu vou te mostrar
a beleza do corpo, o átrio, o pórtico, a nave, o chão, a abóbada!
Quero que escutes o silêncio de cristal do cio saciado, sêmen
semeado com luz


a mais fértil luz.
Em corpo montarei teu corpo e montarás meu corpo,
e sairemos a galope, o corpo aberto à palavra do vento,
e verás que uma cópula é o mais belo dos corpos de baile, e o
mais equóreo corpo-a-corpo.


Fernando Mendes Vianna

6 de junho de 2009

Grude





as noites que não são contigo
eu não exatamente durmo
eu rolo,
você não há
não há desenrolar de coxas, colchas
e entremeios.
não há dobrar de joelhos
se não para rezar.
então semeio
uma concórdia de lençóis
uma não solidão
de cafunés nos cangotes
uma não masturbação.
adormeço
você é o cheiro que ficou de nós
eu respiro pós dos sonhos
eu latejo
eu planejo
eu oro.
as noites que não são contigo,
eu não exatamente durmo,
eu enrolo.

Elisa Lucinda

Sensações




... E nada mais ao redor existiu.

Apenas seus lábios sedentos tocando minha vulva ardente...


Piettr@